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Kruzes Kanhoto

Ainda que todos, eu não!

Kruzes Kanhoto

Ainda que todos, eu não!

Os mais pobres e, provavelmente, também os mais parvos.

Kruzes Kanhoto, 27.01.21

Nunca tive curiosidade nenhuma em ler o programa de qualquer partido. Muito menos do Chega. Devo ser, a julgar pelo que vejo nas redes sociais, dos poucos portugueses que não norteiam a sua vida pela busca do conhecimento permanente em matérias fundamentais como as linhas programáticas dos partidos políticos. Nomeadamente do tal Chega.

Também já tinha prometido que, tão cedo, não voltava ao tema “taxa plana de IRS” depois de, na sequência da proposta apresentada na Assembleia da República pela Iniciativa Liberal ter dedicado uma semana inteira de posts aqui no Kruzes. Estão aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

Mas isto é mais forte do que eu e esta cena do IRS mexe muito comigo. Nomeadamente ao nível da carteira. Daí que, após ler inúmeras publicações de gente esclarecida e bastante informada em política fiscal criticando os eleitores do Ventura por votarem no homem sem conhecerem as propostas do Chega para o IRS – e para mais umas quantas coisas, também - resolvi vasculhar o programa daquela agremiação relativamente a esta matéria. A critica – a que me interessa, com as outras não perco o meu tempo - desta chusma de especialistas da especialidade prende-se com a taxa única de imposto que os cheganos pretenderão aplicar se um dia forem governo (lagarto, lagarto, lagarto, ai Jesus, cruzes canhoto). Uma vergonha, garantem os entendidos do facebook escandalizados por ser proposto que todos paguemos quinze por cento sobre o rendimento auferido. Mas não leram – e, por acaso até aparece ANTES do valor da taxa – que a taxa única de IRS, que defendemos, deverá ser aplicada apenas a partir de um determinado nível de rendimento”. Deve ter sido esquecimento. Ou burrice. Ou, então, estão a usar aquela coisa de que acusam o chegano Chefe. Demagogia, ou lá o que é.

Só mais uma coisinha. No final do mandato presidencial resultante desta eleição seremos o país mais pobre da Europa. Atrás de muitos países que recentemente nos ultrapassaram e de outros que, entretanto, vão ultrapassar e  onde a taxa plana de irs é uma realidade. Mas deve ser apenas coincidência, claro. 

 

Não são "eles" que ganham muito, nós é que ganhamos pouco...

Kruzes Kanhoto, 01.01.21

Acabo ler um artigo, secundado por um enorme rol de opiniões a enaltecer a bondade da opinião expressa, a defender a redução do leque salarial dentro das organizações. Ou seja, que o salário mais alto dentro de uma empresa deve ser limitado a n vezes o salário mais baixo. Coisa que deixou a esmagadora maioria dos opinantes à beira do êxtase com a genialidade da ideia.

Por mim, pese a simpatia que a sugestão possa suscitar, acho uma parvoíce. Bem reveladora do sentimento de inveja que por cá vigora, também. Podiam, se calhar seria ligeiramente menos parvo, propor exactamente o contrário. Ou seja, o vencimento mais baixo – e todos os outros, de resto – estaria indexado ao vencimento mais alto. O do CEO, ou lá o que chamam agora aos manda-chuvas. Parece a mesma coisa, mas não é. Imagine-se, quando essa malta se resolvesse auto-aumentar, o que não acontecia aos restantes ordenados… “Eles”, tal como agora, continuavam a ganhar o que quisessem, mas o resto teria de ir tudo atrás.

A indexação dos salários base aos de topo, por qualquer destas vias, teria sempre outro problema. A progressividade do IRS. Coisa que quem subscreve esta tese também defende como justa. Embora, na minha irrelevante opinião, a sua aplicabilidade não seja possível sem a implementação de uma taxa plana. Caso contrário a justiça social associada à ideia não passaria de uma treta que, no final do dia, nos tornaria todos igualmente pobres.

IRS - Quando os argumentos descem ao nível da pré-primária...

Kruzes Kanhoto, 25.09.20

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Acabo esta série de posts que tiveram como tema a proposta da Iniciativa Liberal no sentido de ser implementada uma taxa única de IRS, com as reacções que esta ideia suscitou. Duas, basicamente. Ambas bastante básicas, diga-se. “Não, porque assim os ricos pagariam menos”, uma delas e “não, porque quem não paga não é beneficiado”, a outra. Elucidativo. Um argumentário bastante revelador. Nem vale a pena dizer do quê. Mas que nos devia deixar em alerta sobre o carácter de quem o usa. O desprezo a que votam a metade dos portugueses que pagam IRS diz muito acerca de quem nos dirige e dos badamecos gravitam à sua volta.

Um dia destes voltarei ao assunto. Por agora, que o fim do ano começa a aproximar-se, vou fazer planeamento fiscal. O meu. Que isto, sem taxa plana, há que fazer tudo para pagar a taxa mínima.

IRS - Se a inveja fosse dedutível...

Kruzes Kanhoto, 23.09.20

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Para muita gente cinquenta euros ao fim do mês a mais no ordenado não são nada. Setecentos, no final do ano, também não. Mesmo que estejamos a falar de vencimentos abaixo ou a rondar os mil euros. São, curiosamente ou talvez não, os mesmos que rasgam as vestes sempre que recordam a austeridade, as patifarias do Passos Coelho, o roubo dos salários e que se afirmam convictos defensores dos trabalhadores. E do povo, como diz o outro.

Não me surpreende este pensamento. Tal como não me espanta a incapacidade de muitos outros em perceberem que sim, efectivamente a generalidade dos trabalhadores por conta de outrem ficariam a ganhar com a taxa plana de irs. Talvez vendo a imagem que que acompanha o post percebam. Os valores referem-se à tabela de retenção na fonte de “casado – dois titulares – sem dependentes”. É esta apenas por ser a que se me aplica, mas ser outra qualquer. O resultado não teria diferenças substanciais.

Sendo um imposto anual, o resultado final não é, obviamente, a soma das catorze retenções. Há que ter em conta toda uma panóplia de deduções e abatimentos. Nomeadamente de despesas de saúde, educação ou exigência de factura que poderão ter alguma influência no apuramento. O que constitui um dos principais argumentos dos que são contra a taxa única. Válido e muito pertinente, diga-se. Só é pena que se esqueçam de acrescentar que, ao arrepio das suas alegadas preocupações, essa benesse é quase irrelevante nos rendimentos mais baixos. Mas, no fundo, nada disso lhes importa. Desde que dez ou vinte ricaços não deixem de pagar umas centenas de milhares de euros, querem lá eles saber se centenas de milhões de portugueses ficam ou não com mais dinheiro disponível. A isso chama-se inveja. Ou parvoíce, sei lá.