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Kruzes Kanhoto

Ainda que todos, eu não!

Kruzes Kanhoto

Ainda que todos, eu não!

Guardem as galinhas, que vem aí a "diraita"...

Kruzes Kanhoto, 24.01.22

“Porque temos salários baixos?” É a pergunta, a soar a falsete, de uma revista que se publica semanalmente. Dá, entre outros exemplos, o de um jovem que auferirá setecentos e quinze euros mensais. Pouco, muito pouco efectivamente. Não sei se a questão colocada na capa da citada publicação será a mais correcta. Para mim seria mais adequado questionar porque motivo estamos a pagar - e pior, de forma tão desigual - impostos tão altos. Atente-se no caso do desgraçado atrás referido. Do magro pecúlio que o patrão lhe paga o Estado, para o IRS, apropria-se de 12,87€, deixando-o com um vencimento de 702,13 ao qual ainda vai descontar a TSU. O que significa que leva para casa menos do que o colega a quem o patrão paga os 705,00€ do SMN. Mas este “jove” nem é dos piores exemplos. Até tem sorte em não ganhar mais dez ou quinze euros. E, coitado, se fôr casado para o fisco já será um pequeno burguês.

Infelizmente nada disto importa na campanha. Quem, de uma ou outra forma, levanta o problema é apoucado pela esquerda, enrolado em explicações manhosas pelo centrão e ignorado pela generalidade da comunicação social. O importante, para eles e estranhamente para uma imensa parcela do eleitorado, é a “diraita”, a “extrema-diraita” e outros fantasmas. Eles que vão mas é bardamerda. A “diraito”, que é para não se perderem no caminho.

Inquietações eleitorais

Kruzes Kanhoto, 23.01.22

Mais de uma hora na bicha para exercer o meu direito de voto foi tempo bastante para me ocorrerem umas quantas inquietações. Quase todas, diga-se, relacionadas com o acto eleitoral em curso. Uma delas tem a ver com o dia de reflexão. Se é uma cena assim tão importante – uma vaca sagrada, pelos vistos – ontem e hoje não devia ser permitido fazer campanha. Nem, tão pouco, falar-se de eleições e assuntos relacionados nos meios de comunicação social ou nas redes sociais. Pouca será, portanto, a legitimidade dos que nos próximos dias vinte nove e trinta reclamarem de eventual propaganda eleitoral.

Outra inquietação tem a ver com o próprio sistema eleitoral. Quem o arquitetou entendeu – vá lá perceber-se a ideia – transformar uma eleição nacional em vinte pequenas eleições regionais. O que, como é óbvio, limita a escolha dos eleitores residentes nos círculos menos populosos. No distrito de Évora – em Portalegre ainda é pior – se não quiser que o meu voto seja absolutamente inútil, apenas tenho três opções. Qualquer outra escolha para além do PS, PSD ou PCP constituirá um voto que não serve de nada. A existência de um único circulo nacional seria a solução para que todos os votos fossem iguais e contribuiria, também, para uma maior diversidade na representação parlamentar. Mas isso, por mais que proclamem o seu eterno amor à democracia, pouco interessa aos dois maiores partidos.

Desamparem a loja, pá!

Kruzes Kanhoto, 22.01.22

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Os portugueses caminham rapidamente para a extinção. Somos cada vez menos e os que sobram são cada vez mais velhos. Um destes dias, a continuar assim, seremos um deserto. Há, contudo, duas ocasiões em que acho que ainda não temos desertificação suficiente. Uma, ao nível local, é quando nos sábados de manhã tento beberricar o meu cafézinho matinal e todos os cafés, pastelarias e similares estão a abarrotar de gente. A outra, à escala nacional, é quando vejo indivíduos destes a mandarem bacoradas como a que o JN chamou à capa um dia desta semana. Ele que vá. Faz cá tanta falta como a fome. E não volte, de preferência.

Não é iliteracia, é burrice mesmo.

Kruzes Kanhoto, 21.01.22

De acordo com um estudo do Banco Central Europeu, em matéria financeira, os portugueses são os mais iletrados da Europa. Não era preciso o BCE perder o seu precioso tempo a estudar o nosso conhecimento das cenas relacionadas com o dinheiro. Somos uns verdadeiros asnos relativamente a esses assuntos e isso é mais do que notório. As evidências são mais que muitas. As consequências desse analfabetismo também. Nomeadamente no nosso bolso.

Veja-se, por exemplo, o IRS. Que é, não me canso de o escrever, dos impostos que mais me incomoda. Aquilo é um verdadeiro roubo, algo que devia revoltar todos os que dele são vitimas e envergonhar qualquer ministro das finanças. Mas não. Ao invés disso ainda há alarves que, parvamente, conseguem justificar o saque fiscal de que são, também eles, vitimas.

Dizia hoje alguém que, na nossa sociedade, ter dinheiro é algo mal visto. Constitui em termos sociais, acrescentava, uma espécie de afronta a que não tem. Infelizmente assim é. Para além de burros, somos invejosos. A rejeição generalizada da “taxa plana” de IRS é disso um bom exemplo. Preferimos continuar a pagar muito, só para que quem ganha mais do que nós não passe a pagar menos do que paga agora. É a inversão de um conhecido dito popular. Com o bem dos outros posso eu mal...mesmo que o bem seja igualmente para mim.

Como é que estão as odds para o debate de hoje?

Kruzes Kanhoto, 14.01.22

Isto dos debates televisivos entre candidatos está como o futebol. Na bola, meia-dúzia de fulanos passam horas, antes e depois, a debitar alarvidades acerca de um jogo que, durante os noventa minutos regulamentares, apenas raramente tem alguma semelhança com aquele que acabámos de televisionar. Na política estamos na mesma. Aquilo que os excelsos jornalistas, politólogos e afins comentam não é, na maior parte dos casos, o mesmo debate a que qualquer cidadão na posse das suas capacidades auditivas acabou de assistir.

Não me parece que tenha grande relevância quem ganha ou perde um determinado frente a frente. Até porque nem estou a ver que métrica pode ser usada para definir a vitória ou derrota de qualquer um dos intervenientes. Nenhum deles está ali para convencer o opositor nem, muito provavelmente, nenhum telespectador minimamente informado mudará o seu sentido de voto face à prestação dos candidatos. Aquilo não passa de wrestling, ou lá o que é aquela coisa onde umas criaturas fingem brigar. De um debate entre Catarina Martins e André Ventura, por exemplo, estamos à espera do quê? Que critério é que se pode usar para declarar um vencedor? Quando muito, estes e os outros, demonstram as suas ideias e vincam as diferenças que os separam. O resto é entretenimento.

Tele...o que se queira!

Kruzes Kanhoto, 11.01.22

Em matéria de inovação tecnológica Portugal está na linha da frente. E nisto, por muito que custe aos liberais mais empedernidos, o Estado dá cartas. Está, digamos, anos-luz à frente dos privados.

Veja-se, para não irmos mais longe, a questão do teletrabalho. Enquanto no sector privado ainda existem inúmeras resistências à sua introdução, na administração pública já se consegue colocar toda a gente, seja qual for a profissão, a trabalhar a partir de casa. Ou do café, se preferirem. Desde pedreiros a canalizadores, jardineiros a varredores, senhoras da limpeza a motoristas, tudo teletrabalha. É a tecnologia. Seja ela – a tecnologia - qual for que permite esse milagre. Deve ser ultra-secreta, por enquanto.

Mas nisto, como sempre, os velhos do Restelo não podiam deixar de se fazer ouvir. Argumentam, veja-se o topete, que a malta quer é teledescanso. Fazem-me lembrar aquele meu tio-avô que, ao ouvir falar pela primeira vez em bebés-proveta, exclamou indignado: “Pode lá ser! Onde já se viu fazer filhos sem f**der!”. O futuro encarregou-se de o desmentir.

Todos igualmente pobres

Kruzes Kanhoto, 10.01.22

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Desde que chegou ao poder as preocupações da esquerda em matéria de ordenados têm-se resumido ao salário mínimo nacional. É uma opção. A tradicional para aquelas bandas do espectro político. Quem ganha o SMN fica contente com o aumento, apesar de continuar igualmente pobre. Condição que, por força da estagnação salarial que ocorre daí para cima, se vai alargando todos os anos a mais trabalhadores. Ao fim de algum tempo o objectivo de atingir a igualdade na pobreza estará alcançado.

Apenas um idiota ou um esquerdista – passe o pleonasmo – não percebe que o salário mínimo será sempre sinónimo de miséria franciscana. Por mais que a pretendam engravatar. A economia adapta-se a estes aumentos e o poder de compra continuará igual. E isto nem sou eu dizer, até porque destas matérias percebo tanto como um barbeiro. Basta-me ter presente o que aconteceu no pós 25A quando o SMN foi criado e fixado em três contos e trezentos. Apesar de então o vencimento de milhões de trabalhadores ter triplicado, veja-se o resultado disso. Mas, ao contrário de qualquer animal, a esquerda tropeça sempre na mesma pedra. E gabam-se disso.

A liberdade está a ir-se embora daqui...

Kruzes Kanhoto, 09.01.22

Mudam-se os tempos mudam-se as vontades, já escrevia o outro. Com os tempos e com as vontades mudam-se também os insultos, acrescento eu que de poeta nada tenho. É o que dá não ter herdado a queda para a rima de um avô que, parece, tinha um certo jeito para versejar.

Vem isto a propósito de ultimamente as expressões “liberal”, “neoliberal” ou “ultraliberal” serem frequentemente usadas com o objectivo de tentar insultar - ou manifestar desprezo, sei lá - a quem se aborrece com o nível de esbulho a que chegou a nossa fiscalidade. Pensava eu, na minha imensa ignorância, que ser liberal, fosse qual fosse o grau, se tratava de uma coisa boa. Mau, acreditava, era se fosse fascista, comunista ou defensor de outra ideologia igualmente criminosa.

Também estava convencido que o roubo, independentemente de quem o pratica, é sempre um acto hediondo. Mas, não. Segundo a maioria dos meus compatriotas, se fôr o Estado a roubar, trata-se de uma coisa virtuosa. Daí que bovinamente engulam as pantominices que são sendo ditas e escritas acerca da chamada “taxa plana” de irs e, pior, as repitam evidenciando uma ignorância que dá náuseas. Podem gostar de ser roubados, chulados ou o que quiserem. É também perfeitamente legitimo defender a progressividade do imposto e alegar a perda, no curto prazo, de um valor significativo de receita que adviria da aplicação da dita taxa. O argumentário em uso, baseado apenas na iliteracia e na inveja, é que é absolutamente asqueroso.

Que tradição mai'linda...

Kruzes Kanhoto, 08.01.22

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Cada terra tem as suas tradições. Por este país fora há muitas e belas tradições que os autóctones se empenham em preservar. Desde deitar fogo a um gato, tourear bois até à morte a pôr pirralhos de seis anos a fumar, há de tudo um pouco. Cada uma muito genuína e ancestral, garantirão as gentes desses locais.

Por cá também temos essa coisa das tradições. Mas ao contrário dos gajos que chamuscam felinos, matam touros ou enfiam cigarros na boca dos gaiatos, que reservam um único dia do ano para essas parvoíces, nós gostamos tanto das nossas tradições que as praticamos todos os dias. Não vão cair em desuso ou o zelo dos serviços de limpeza da autarquia leve a melhor.

Numa zona da cidade existe a antiquíssima tradição de atirar o lixo do alto da muralha em direcção ao terreno circundante. É um costume respeitável – deve remontar aos tempos das invasões castelhanas ou francesas - que as sucessivas gerações de moradores se têm esmerado em transmitir aos seus descendentes. É, como se pode apreciar, uma coisa linda. Lamentavelmente a autarquia limita-se a ciclicamente retirar os despojos do local. O que é, há que dizê-lo com toda a frontalidade, manifestamente pouco. Esta tradição encerra em si todo um potencial que merecia outro aproveitamento. Explorar aquilo do ponto de vista turístico, nomeadamente. Criar, por exemplo, um concurso para premiar o atirador que conseguisse lançar o lixo a uma distância maior. Ou, quiçá, para quem lançasse o objecto mais pesado ou mais original. Em colaboração com os habitantes podia até criar uma actividade em que os turistas lançavam, também eles, o lixo por ali abaixo. Era uma experiência, como agora se diz. Fica a dica.

E sair de casa para me abster, posso?

Kruzes Kanhoto, 07.01.22

Afinal, quase dois anos depois, estamos prestes a concluir que proibir as pessoas de sair de casa é inconstitucional. Desde que essa proibição, como é evidente, envolva coisas importantes. Daquelas que todos temos de fazer. Como, por exemplo, passear o cão ou votar. Já para banalidades como trabalhar ou comprar comida é óbvio que a proibição se mantém. Devidamente respaldada pela lei fundamental, como é bom de ver. Ou seja, nesta terra de malucos qualquer badameco decide, quando muito bem lhe apetece, acerca de direitos que podem ou não ser violados.

Arrenego todas as teorias dos negacionistas desta pandemia mas, começo a achar, que não são os únicos doidos varridos. É que isto, do lado dos especialistas na especialidade e dos políticos, não falta gente empenhada em lhes dar motivos para acharem que têm razão. Depois, num próximo confinamento geral e obrigatório, venham para cá convencer o pagode que não podemos sair para comprar cerveja, visitar a sogra ou – loucura das loucuras – ir trabalhar.