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Kruzes Kanhoto

Ainda que todos, eu não!

Kruzes Kanhoto

Ainda que todos, eu não!

Neve em Estremoz

Kruzes Kanhoto, 10.01.21

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Estou como dizia ontem o outro. Dois mil e vinte um não pode ser um ano como os outros. O Sporting em primeiro, cai neve em Estremoz...ná, isto há aqui qualquer coisa. Embora, convenhamos, é muito mais normal nevar nesta terra do que os lagartos serem campeões. Assim que me lembre já por cá nevou em duas ocasiões nos últimos quinze anos e neste período de tempo nunca o clube do Lumiar ganhou o campeonato. 

Ainda a propósito da neve. Isto ontem foi um corrupio de equipas de reportagem das televisões. Andaram por aí todas, minutos sem fim de emissão dedicados à neve que por cá ia caindo e repórteres a repetirem-se até à exaustão por, coitados, não terem nada de interessante para dizer. Uma monotonia, diga-se, unicamente quebrada por uma queda em directo.

Nem quero imaginar o que teria sido caso não houvesse esta coisa do confinamento, recolher obrigatório ou lá o que é. Devia ser uma romaria de lisboetas a vir mostrar a neve à Carlota, ao Martim e ao Francisco. Sim que, coitados do putos, isso ainda eles podem ver de quando em vez...

A desolação de sábado de manhã

Kruzes Kanhoto, 29.11.20

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Desoladora. É o que me ocorre escrever acerca da imagem. Num sábado normal, às nove e picos, neste local quase não havia chão onde pôr os pés. Agora está assim. O que até torna irónica a medida de limitar a quinhentas pessoas a lotação máxima do espaço onde decorre o mercado. Que, diga-se, é a céu aberto e se estende por uma área que equivalerá, mais coisa menos coisa, a dois campos de futebol. Apesar disso, como qualquer pessoa de bem reconhecerá, um local muito mais propenso à propagação do vírus chinês do que um pavilhão fechado onde, durante horas, estão enfiados mais de seiscentos malucos a discutir a melhor maneira de nos impor – nem que seja pela força – as suas ideias manhosas.

Sempre em festa...

Kruzes Kanhoto, 03.11.20

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Estremoz passou dos zero aos mais de cem casos de Covid-19 em poucas semanas. Faz, por isso, parte do rol de cento e vinte e um concelhos sujeitos a medidas mais restritivas. Nada de preocupante, dirão alguns. E, se calhar, com alguma razão. Se fosse caso para inquietações as autoridades competentes – é apenas uma força de expressão – já teriam colocado fim à festa que dura há uns dias ali para os lados do Resort. Até porque a algazarra ouve-se do outro lado da cidade e, calculo, deve incomodar quem tem o azar de viver nas imediações.

Ah e tal, a malta é jovem e precisa de se divertir”, “aquilo são festas de aniversário ligeiramente mais extrovertidas” e outros dichotes parecidos são mais do que dispensáveis. Digam antes que não querem chatices, que não vão lá por não terem sido convidados ou, sendo sinceros, que quem tem cu tem medo. Mas, já dizia a minha avó, quem tem medo compra um cão. Não vai é para autoridade competente. E quem não quer aborrecimentos também não.

Anjinhos de quatro patas...patudinhos m'ai lindos...donos m'ai porcos!

Kruzes Kanhoto, 11.09.20

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Admiro a cortesia do autor deste recado. Deve ser alguém dotado de uma paciência de santo e de uma educação de fino recorte. Pedir por favor – em dose dupla – e no final ainda deixar um obrigado, não são palavras que um javardo mereça.

A rua onde a mensagem está afixada é o principal acesso a uma das mais afamadas unidades hoteleiras cá da terra. Além do lixo e da sujidade habitual, tem os passeios, como outras, frequentemente decorados com várias bostas de cão. Não é que me incomode com a imagem que os turistas levam de cá. Se calhar na terra deles acontece o mesmo e, provavelmente, alguns também não recolhem o cocó do seu canito. O que me chateia é que passo ali a pé todos os dias e ainda me lesiono por causa dos desvios repentinos de trajectória que sou forçado a fazer para evitar os montes de merda. Os verdadeiros.

Profunda é a tua tia...

Kruzes Kanhoto, 10.09.20

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Alentejo profundo. Outra vez. Porra pá, estes gajos aborrecem. Agora é Arraiolos a receber a distinção. Não sei se a besta que redigiu a noticia sabe, mas aquela localidade fica a cento e vinte e três quilómetros de Lisboa. Que será, presumo eu, o ponto que serve de referencia para calcular a profundidade às alimárias que não se conseguem referir ao Alentejo sem acrescentar o adjectivo profundo. Isto partindo do principio que a distância até à superfície se mede de lá para cá. Por mim prefiro pensar – só para os contrariar, senão era igual a eles – que a profundidade se devia medir de cá para lá. É que, parecendo que não, nós estamos muito mais perto do centro da Europa do que Lisboa. No meu caso, uns cento e setenta quilómetros mais próximo. Ora toma, ó estagiário.

E, já agora, rotular qualquer terra desta região como sendo do Alentejo profundo parece-me configurar assim uma espécie de estereotipo. De preconceito, até. Uma afirmação de alguém que pensa habitar num lugar mais elevado, com um cheirinho a discriminação e que revela um sentimento de superioridade. Se fosse o Ventura a dizer tal disparate era coisa para classificar como discurso de ódio, ou isso. Assim é só mais uma bacorada do jornalismo fofinho.

A calculadora, a metralhadora e o azulejo

Kruzes Kanhoto, 17.08.20

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Quando ouço falar em cultura puxo imediatamente da calculadora. Virtual, quando estou de folga. Ou seja, desato a fazer contas de cabeça. Por norma, poucos segundos depois, apetece-me puxar da metralhadora. Imaginária, está bem de ver.

Apesar de relutante, dado o pouco interesse que tenho por estas cenas, visitei um destes dias o novel museu cá da terra. O do Berardo, ou sabe-se lá de quem. O entusiasmo dos licenciados em revestimento de paredes e dos doutorados em azulejaria, manifestado exuberantemente nas redes sociais, foi determinante para me convencer. Em boa hora o fiz. Ando a pensar em fazer umas obras cá em casa e aquilo deu-me umas ideias. Quanto ao mais, digo como a maioria dos visitantes. Tá bonito, lá isso está...



A oportunidade da graçola

Kruzes Kanhoto, 23.07.20

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Gosto de fazer graçolas. Muitas não passam de tentativas falhadas e não têm graça nenhuma. Não admira. Não sou especialista da especialidade. Nem no âmbito da piadola, nem de outra coisa qualquer.

Quem é especialista numa quantidade de especialidades é um tal Berardo. Entre as especialidades em que é especialista incluem-se os empréstimos bancários e as graçolas. Em ambas, muito melhor do que eu. Não admira. Terá, dizem, muita prática. A graçola de ontem foi magnifica. Garantiu, para quem o quis ouvir, que a Caixa Geral de Depósitos lhe deve umas massas. Não sei se é ou não verdade. Mas, se calhar foi da maneira como ele disse, ainda não consegui parar de rir. Porra pá, que inveja. Aquilo é que é uma graçola mesmo à séria. Só um homem sério consegue fazer uma piada assim. Caso se risse perdia a graça toda.

Wc vertical

Kruzes Kanhoto, 21.07.20

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Não sei como se chama este móvel. Equipamento, utensílio ou lá o que se queira chamar-lhe. Não duvido da utilidade que já teve noutros tempos. Num tempo em que a maioria das habitações não dispunha de casa de banho nem, muito menos, água canalizada ou rede de saneamento. Uma cena destas, então, devia ser coisa de gente fina. E hoje, provavelmente, também. Mesmo que lhe seja dada outra finalidade qualquer. Muito menos nobre, quase de certeza. Mas isso será com o comprador, que lhe dará o destino que muito bem entender. Estava à venda, no sábado passado na feira das velharias de Estremoz, pelo simpático preço de trezentos euros. Uma pechincha.

 

Deixai arder...

Kruzes Kanhoto, 13.07.20

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Uma semana foi o tempo que decorreu entre estas duas imagens. A diferença não é muita, diga-se. Ambas retratam uma realidade deplorável. O facto de ter ardido, no caso, não melhora nem piora o estado de abandono a que esta zona da cidade está votada. É que nem o facto de um dos últimos presidentes – durante vinte, dos últimos vinte seis anos – morar nas cercanias, serviu de alguma coisa. Nunca deve ter reparado, se calhar.

A sombra que vem do céu...

Kruzes Kanhoto, 04.07.20

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Alentejo não tem sombra

Senão a que vem do céu

Chega-te aqui Maria

Para a sombra do meu chapéu”

Nesta rua, que deve ter para aí uns duzentos metros, não existe uma única árvore no espaço público. É uma mania que, desde há muito, existe por estas paragens. Quem tem poderes de decisão sobre esta matéria deve achar que assim é que é bonito, agradável para passear e sem obstáculos que nos impeçam de visualizar as deslumbrantes paisagens alentejanas. A logística que envolveria o arvoredo, desde a plantação até à manutenção, constituiria, presumo, um problema de monta que justificará esta desolação paisagística. Nomeadamente ao nível da mão-de-obra que seria necessária e que, desconfio, não existirá em quantidade suficiente.

Mas nem tudo é mau. Não temos árvores, mas temos placa toponímica. O que é bom. Nomeadamente para os carteiros. Pena é que dê pouca sombra.