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Kruzes Kanhoto

Ainda que todos, eu não!

Kruzes Kanhoto

Ainda que todos, eu não!

Os fura-filas da vacinação

Kruzes Kanhoto, 04.03.21

Há quem garanta que as dificuldades colectivas despertam sentimentos de solidariedade entre as pessoas. Não acredito. Acho que a coisa, nessas circunstâncias, é mais pelo salve-se quem puder ou pelo primeiro eu e depois os outros logo se vê.

Atentem-se nisto das vacinas contra a Covid-19. Todos fazem o que podem para serem vacinados o mais depressa  possivel. Toda a gente se considera prioritária e argumentos, mais ou menos delirantes, para defender esse seu inalienável estatuto não lhes escasseiam. Depois de algumas “picadelas” alegadamente questionáveis de que todos já ouvimos falar, professores, alunos e pessoal de educação parece que são agora os novos prioritários. Mas, atendendo ao risco, os gordos e deficientes já se perfilam como sendo quem se seguirá na fila das prioridades. Quiçá taxistas, cabeleireiros, empregados do comércio, prostitutas ou criadas de servir reivindiquem também a sua inclusão no grupo dos fura-filas. Ou, de caminho, os funcionários públicos. É que se por acaso o vírus chinês se mete lá onde os gajos fazem os pagamentos das reformas, do RSI ou do subsidio de desemprego é capaz de se dar uma grande chatice. E a esses, parece-me, ainda ninguém se lembrou de dar prioridade.

Se isto é solidariedade, vou ali e já volto. É apenas cada um a tentar ser mais esperto do que os demais. Por mim dispenso essas guerras. No dia em que me quiserem vacinar, lá estarei. Posso, até, ser o último. Só para ver se, por causa disso, apareço na televisão...

Sim, prefiro fugir com o dito à seringa.

Kruzes Kanhoto, 14.02.21

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Quando, em gaiato, era atormentado pelas maleitas próprias dessa condição – aquelas doenças que todos apanhamos em inicio de vida – e a minha mãe sugeria a necessidade de recorrer ao médico, a primeira pergunta que me ocorria era, invariavelmente, se o tratamento ia incluir injecções. A segunda, nas ocasiões em que não ouvia um não perentório à primeira, era se o padecimento que me afligia podia levar ao meu falecimento. Sendo a resposta convictamente negativa, o caso complicava-se e a minha resistência em recorrer aos serviços de um clínico aumentava consideravelmente. A lógica era simples. Não existindo o perigo de quinar, não valia a pena correr o risco de o médico receitar qualquer coisa injectável. Um terror, para mim, naquela altura. Tanto, que pouco me importava penar mais um bocado, com os sintomas das maleitas de ocasião, só para não ser picado.

Com o tempo o pânico às agulhas foi-se desvanecendo. Mas, confesso, a inquietação está a voltar. Deve ser por cada vez que ligo a porra da televisão para ver um noticiário, aparecer alguém a ser espetado num ombro. Aquilo repete-se em todo o lado a toda a hora. Sem necessidade, digo eu. Que isto de ver braços a serem trespassados por agulhas, é daquelas cenas que deviam ser anunciadas como podendo ferir a sensibilidade dos espectadores mais sensíveis. Assim tipo eu. Nomeadamente agora, que ninguém me garante a impossibilidade de falecer em consequência da maleita.

Se eu não estudo, tu não estudas...se eu não como, tu não comes...se eu não f***, tu não f****...

Kruzes Kanhoto, 22.01.21

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O governo fechou as escolas e, num rasgo de rara sagacidade, proibiu o ensino à distância. O objectivo, garante, é prevenir situações de desigualdade entre os alunos. Assim, para evitar que uns continuem a aprender e outros não, proíbem-se as aulas on-line. Um estranho conceito, este, em que se nivela tudo por baixo. Do tipo, se eu não aprendo tu também não. Todos iguais na burrice, portanto. O que não admira. É nesse ambiente que o socialismo sobrevive.

Contudo, ao que leio, são poucas as vozes discordantes em relação a mais esta ideia brilhante de quem nos governa. Desconfio, até, que ainda hão-de surgir opiniões a contestar a medida por ser notoriamente pouco ambiciosa. Para promover uma verdadeira igualdade, o governo devia era ter decretado a proibição, durante o interregno lectivo, de os alunos estudarem em casa. Não vá algum ter essa ideia. Sim, que isto há gente para tudo.

Tontos

Kruzes Kanhoto, 28.11.20

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Tendo a confiar muito mais nos técnicos do que nos políticos. É cá uma coisa minha, esta ideia. Embora reconheça com facilidade que, como não pode deixar de ser, que a decisão seja qual for o assunto terá de ser sempre política. Afinal é para isso mesmo que os elegemos. Mas o que não faltam são exemplos de decisões tomadas ao arrepio das opiniões dos técnicos. Com os resultados desastrosos que, quase sempre, daí resultam.

Isto da vacina para a Covid é apenas mais um caso. Aquilo que alguns técnicos recomendam – e, provavelmente, nem entre eles será uma posição consensual – pode ou não ser seguido pelos decisores políticos. O que não pode é ser considerada por esses decisores, que de saúde pública perceberão tanto quanto eu percebo de cozinha polaca, como uma ideia tonta.

Não sei porquê mas a mim quando estou doente ocorre-me consultar um médico. Recorrer a um político para verificar o meu estado de saúde foi coisa que nunca me ocorreu. Uma tontice, certamente. Daí acreditar que um técnico de saúde saberá muito melhor do que um político quem deve, ou não, integrar os grupos prioritários de vacinação. E até a mim, gajo pouco letrado e completamente ignorante nesta cena da saúde, me parece razoável que quando se pretende travar a cadeia de contágio a prioridade seja vacinar quem espalha o vírus. Mas, lá está, isso sou eu a dizer. Que, reitero, não percebo nada disto nem tenho eleitores a manter.

Livro de reclamações

Kruzes Kanhoto, 16.11.20

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Muitas são as ocasiões na nossa historia recente em que toda a gente protesta e poucos têm razão. Agora também. Excluo deste grupo, daqueles a quem a razão não assiste, o pessoal da restauração. O sector foi atingido em cheio pelas medidas de combate ao vírus chinês e terá muitos motivos para se queixar. Não está, contudo, a saber passar a mensagem. São notórios os erros de comunicação e o mais certo é isso vir a custar-lhes os negócios, os empregos e os investimentos realizados.

Podem, os empresários do sector, ter toda a razão naquilo dos meses de facturação que contam para o apuramento do apoio governamental. Não lembra a ninguém incluir no calculo o período em que os estabelecimentos estiveram fechados. Uma percentagem de zero, seja ela qual for, será sempre igual a zero. Mas, igualmente mau, é exigir não “pagar” o IVA, como alguns donos de cafés e restaurantes não se coíbem de fazer aos microfones das televisões, alegando que se trata do “maior custo” do seu negócio. O IVA não é um custo deles. É dos clientes e foi pago no acto do consumo. Eximir-se à sua entrega ao Estado é, para além de um possível crime, uma burla e uma falta de respeito para com os consumidores e os contribuintes em geral.

De recordar que o sector, quando da descida do IVA para a restauração, não baixou os preços. Preferiu aumentar a margem de lucro, apesar do exponencial crescimento do negócio com o boom turístico que se seguiu. Convém igualmente não esquecer que não são assim tão raros os estabelecimentos onde se trabalha de “gaveta aberta” e que muitos ainda mostram má cara quando se pede factura. E, sobretudo, é sempre bom não esquecer quem é que no final vai pagar a continha. Com factura.

Sempre em festa...

Kruzes Kanhoto, 03.11.20

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Estremoz passou dos zero aos mais de cem casos de Covid-19 em poucas semanas. Faz, por isso, parte do rol de cento e vinte e um concelhos sujeitos a medidas mais restritivas. Nada de preocupante, dirão alguns. E, se calhar, com alguma razão. Se fosse caso para inquietações as autoridades competentes – é apenas uma força de expressão – já teriam colocado fim à festa que dura há uns dias ali para os lados do Resort. Até porque a algazarra ouve-se do outro lado da cidade e, calculo, deve incomodar quem tem o azar de viver nas imediações.

Ah e tal, a malta é jovem e precisa de se divertir”, “aquilo são festas de aniversário ligeiramente mais extrovertidas” e outros dichotes parecidos são mais do que dispensáveis. Digam antes que não querem chatices, que não vão lá por não terem sido convidados ou, sendo sinceros, que quem tem cu tem medo. Mas, já dizia a minha avó, quem tem medo compra um cão. Não vai é para autoridade competente. E quem não quer aborrecimentos também não.

"Teletrabalho" envolve aquela coisa de trabalhar. Topam?

Kruzes Kanhoto, 01.11.20

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Que a coisa não está fácil toda a gente sabe. Tirando, talvez, aquela parte da população que anda por essas redes sociais fora a pretender fechar o país. “Têm-no” garantido, daí tanto se lhes dê que outros não se possam dar ao luxo de se trancar em casa. É que isso do graveto cair na conta bancária independentemente do esforço desenvolvido não assiste a todos.

É, mais ou menos, como aquilo do teletrabalho. Até parece que estou a ver, já amanhã, toda a gente a querer ir tele-trabalhar. Só porque sim. Ou porque outros vão e eles também querem. Mesmo que as funções que desempenhem se relevem manifestamente incompatíveis com o conceito de trabalhar à distância. Que isto se é para uns é para todos, argumentarão com as habituais certezas e a inteligência que os caracteriza.

Leio apelos lancinantes ao fecho das escolas. Oriundos, alguns, de auxiliares de educação. Compreendo a preocupação. Também percebo que estar três meses sem trabalhar e o ordenado a cair na continha, como da outra vez, é uma coisa prazenteira. Desconfio que pessoal que trabalha em museus, teatros, cinemas, bibliotecas, front-offices e afins também se pretenderá recolher no aconchego do lar. Não seria coisa inédita. No entanto, ao que me pareceu ouvir, o primeiro ministro falou em teletrabalho e, que eu desse por isso, em momento algum se referiu a teledescanso. É bom que toda a gente perceba a diferença.

O Alentejo e o Covid

Kruzes Kanhoto, 28.10.20

Sem Título.jpgDurante meses não tivémos por cá o vírus chinês. Agora anda por aí à solta e os casos da doença sucedem-se. Alguém trouxe para cá o bicho. Que ele, como muito acertadamente diz o Costa, não anda sozinho. Ninguém terá culpa de o transportar. Poucos, tirando um ou outro maluco, lhes dariam boleia.
Mas não surpreende. Resmas de gente a demandar a região, eventos despropositados e montes de criaturas em patéticas festarias para comemorar coisa nenhuma teriam inevitavelmente de dar nisto. A vida e o país não podem parar. Mas alguns podem. Pelo menos podem parar de ser parvos.

PS - A imagem, da capa do jornal i, assinala os concelhos onde o nivel de contágio é mais elevado. Estremoz. Redondo, Borba e Vila Viçosa fazem parte do grupo.

O melhor é contar outra vez...

Kruzes Kanhoto, 24.10.20

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Os portugueses não têm grande propensão para os números. Dos que vão para jornalismo, então, nem se fala. Deve ser por isso que onde uns contam mil manifestantes, outros apenas vislumbram umas dezenas. Já se fosse uma manifestação da CGTP ou dessas causas da moda, seriam aos milhões. Cenas do rigor informativo que por aí se vai vendo. Ou, como diria a minha avó, por estas tirem outras. 

Não sei se usar máscara ajuda, ou não, alguma coisa no combate ao vírus chinês. Hoje ainda não tive ocasião de ler a posição da DGS acerca do assunto. Só sei que o PSD fez mais um frete ao PS e ao governo. E prepara-se, ao que parece, para fazer outro. Com aquilo da aplicação para telemóvel, ou lá o que é. Querem outra. Por mim não tenciono usar nenhuma. E nem é por causa dessa treta da privacidade. É só mesmo pela discriminação, naquela parte da obrigatoriedade, entre portadores de telemóveis. Já quanto à máscara, não vejo mal nenhum. Pelo contrário. Reconheço-lhe até muitas outras vantagens para além daquelas que andam para aí a apregoar.

E, já agora, um guizo, não vá ficar sem rede...

Kruzes Kanhoto, 15.10.20

Já escrevi noutras ocasiões que em situações de crise segue-se o líder sem levantar objeções ou questionar as suas decisões. O que houver para discutir, nomeadamente se as opções foram as adequadas ou não, vê-se depois. Havia de ser bonito, numa batalha, os soldados questionarem a estratégia do general.

É nisto que estamos. Numa batalha. E até aqui a maioria da população tem cumprido aquilo que os “generais” têm decidido. Mas convém que não abusem. Senão, como na guerra, as deserções multiplicam-se. Esta ideia de tornar obrigatória – ainda que em determinadas circunstâncias e apenas para certos grupos populacionais - uma aplicação para telemóvel, ultrapassa em muito as fronteiras do razoável. Não vou entrar em considerandos, como já por aí li, acerca do preço pouco acessível dos aparelhos que permitem o uso desses aplicativos. É do conhecimento comum que quanto mais baixo o rendimento, mais alto o nível tecnológico do telemóvel. Nem, tão pouco, justificar com a pouca intuição dos mais velhos para lidar com essas coisas. Que esses, para o que lhes convém, sabem tudo. Limito-me apenas a considerar que, em democracia, a sua aplicabilidade é praticamente impossível.

Esta ideia, para além do mais, suscita-me duas questões inquietantes. A primeira é desconfiar que a obrigatoriedade do uso desta “app” terá uma finalidade económica. Aquilo, cheio daqueles anúncios irritantes que costumam acompanhar este tipo de produto, é coisa para render uns milhões em receita publicitária. Capaz de dar para uma TAP, uma CP ou um Novo Banco, assim por alto. A segunda inquietação tem a ver com futuras finalidades de aplicações desta natureza. Olha se eles, por exemplo, se lembram de uma cena assim parecida para combater a escassa natalidade...