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Kruzes Kanhoto

Ainda que todos, eu não!

Kruzes Kanhoto

Ainda que todos, eu não!

Reciclagem tradicional

Kruzes Kanhoto, 31.12.25

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Há tradições, sólidas como as muralhas que as inspiram, que atravessam gerações. Costumes ancestrais, transmitidos de forma quase ritual. A fotografia que aqui se vê documenta uma delas. O  nobilíssimo hábito de atirar lixo muralha abaixo. Trata-se de uma prática antiquíssima, cujas origens se perdem no nevoeiro da história. Os primeiros registos remontam, ao que consta, ao primeiro cerco à urbe. Um episódio ocorrido numa época tão remota que ainda eu tinha cabelo. O que ajuda a situar cronologicamente o evento no dealbar da humanidade. Nessa altura, os atacantes terão sido rechaçados com recurso a pedradas e a todo o tipo de objectos disponíveis à mão, inaugurando assim uma escola de defesa urbana baseada no improviso e no desperdício doméstico.

A tradição manteve-se viva ao longo dos séculos. Sempre que os castelhanos se lembravam de entrar por aqui adentro com intenções menos amistosas, lá choviam detritos, móveis e utensílios vários, garantindo uma retirada célere e pouco digna. Diz-se que muitos invasores regressaram a casa não só derrotados, mas também com uma profunda aversão a cerâmica partida. Daí aquela tradição manhosa que os espanhóis hoje têm de ir à feira de Elvas comprar louça.

É reconfortante verificar que, apesar da modernidade, há quem continue a honrar os costumes dos antepassados. Verdade que, nos últimos anos, ninguém tentou invadir a povoação. Mas com o estado em que anda o mundo, nunca fiando. Nada como manter o treino em dia e assegurar que, se o pior acontecer, não falte munição. À vista desarmada o arsenal parece modesto. Garrafas de plástico, caixas de cartão e um ou outro electrodoméstico fora de prazo. Mas não nos iludamos. Em caso de necessidade extrema, haverá sempre recurso a armamento pesado. Seguramente nos "paióis" existirão frigoríficos, máquinas de lavar, fornos e um velho sofá de três lugares em fim de vida prontos a serem arremessados. Tudo em nome da defesa civil e da pátria gloriosa. Que o Putin, ou qualquer outro pateta com ambições expansionistas, se ponha a pau. Aqui não passará. Os bravos patriotas do local estão preparados para pôr a milhas qualquer atacante. Com eficácia, convicção e um profundo desprezo pela recolha selectiva de resíduos. Um grande bem-haja a quem não deixa morrer as tradições.

Especialistas em tudo ou mestres do nada

Kruzes Kanhoto, 26.12.25

 

Há pessoas que sabem tudo sobre tudo. Não se limitam a ser especialistas nisto ou naquilo. Não. São especialistas em tudo o que alguma vez foi, é ou poderá vir a ser uma especialidade. É precisamente por isso que adoro ler o que escrevem e ouvir as suas opiniões sábias, profundas e, sobretudo, muito especialmente especializadas, que fazem o especial favor de nos oferecer, quase sempre sem que ninguém lhas tenha pedido. O tempo, esse mal-educado, costuma depois encarregar-se de os desmentir. Ou de pôr as suas certezas em modo de dúvida permanente. Em quase tudo, curiosamente.

Garantem estas eminências que os imigrantes — que, diga-se desde já para evitar ataques de nervos, fazem cá falta e a questão nem é essa — estão a salvar a Segurança Social. Vai-se a ver, porém, e a idade da reforma continua a subir, enquanto o valor das pensões, em comparação com o último vencimento, continua a descer. Quanto aos estrangeiros que cá vivem e trabalham, não se sabe ao certo quantos são, onde moram ou o que faz a maioria. Parece até que é mais simples contar javalis. Esses, segundo dados oficiais, são quatrocentos mil. E, arrisco dizer, mais facilmente localizáveis.

Em matérias legislativas, então, a especialização atinge níveis olímpicos. Garantem, com ar grave e tom doutoral, que aquela coisa dos cartazes do Ventura é manifestamente ilegal por discriminar toda uma comunidade. Talvez seja. Sou tentado a concordar. Aliás, já achava o mesmo quando muita dessa gentinha, que agora rasga as vestes em defesa da não discriminação, se deliciava a contar anedotas e graçolas onde os alentejanos surgiam invariavelmente como criaturas alérgicas ao trabalho. Alguns chegaram mesmo a aborrecer-se por eu não lhes achar piada e acusaram-me de uma “incapacidade de rir de mim próprio”, prova inequívoca — segundo eles — da minha falta de inteligência. Pois. De discriminação percebem eles. Nisso, reconheço, são mesmo especialistas. Têm anos de prática, currículo sólido e uma notável capacidade de só identificar a que dá jeito.

O passado, em politica, é muito imprevisivel

Kruzes Kanhoto, 22.12.25

Tempos houve em que se garantia que um tipo perigoso é aquele que nos olha nos olhos e mente. Hoje mente-se com a maior das naturalidades enquanto nos olham de frente. Sem sequer pestanejar, se preciso for. Os políticos aperfeiçoaram essa prática e a mentira faz parte integrante das suas estratégias. Digamos que a mentira deixou de ser um desvio moral para se tornar numa competência transversal, especialmente apreciada na carreira política. 

Mas, convenhamos, há mentiras e mentiras. Uma coisa é prometer mundos e fundos para o futuro, esse território sempre elástico onde tudo cabe e nada se confirma. Outra, bastante mais grave e com muito menos margem para ginástica verbal, é mentir sobre o que se fez no passado. Foi nesse campeonato que decidiram alinhar António Filipe e André Ventura. Pelos menos, assim que me lembre, mais à descarada.

O primeiro garante, com ar ofendido, que o PCP nunca, jamais, em tempo algum, defendeu a saída do euro e da União Europeia. Ideia que, aparentemente, brotou espontaneamente da imaginação coletiva de décadas de militantes, dirigentes e documentos oficiais. O segundo jura a pés juntos que é uma falsidade pegada ter dito que votou em José Sócrates. Tudo invenções, como se sabe.

Cada qual é livre de defender as ideias que bem entender. Os comunistas, por exemplo, sonham com um país que seria uma espécie de Cuba em versão europeia, com clima menos tropical e economia igualmente exótica. É lá com eles. O problema não é a ideia, mas sim a negação histérica de a ter tido. Assumir posições exige coluna vertebral e, como temos visto no caso da Ucrânia, isso é um acessório que o PCP tende a dispensar sempre que em causa está a mãe-Rússia.

Quanto a ter votado em José Sócrates, obviamente, não tem nada de mal. Especialmente se, como diz André Ventura — embora nunca saibamos quando está a falar verdade — se arrependeu por se sentir enganado. Acontece aos melhores e ele até está muito longe de integrar esse grupo. O incómodo começa quando não se assume e evolui para o patético quando se jura que é mentira. Ainda assim, vindo de alguém que votou no candidato do PS enquanto militava no PSD, não é exatamente motivo para espanto. Aliás, não me surpreenderá minimamente se, nas próximas presidenciais, André Ventura acabar por não votar no candidato André Ventura. Afinal, coerência é um conceito raramente usado na politica. Por ele e por todos.

A última carta

Kruzes Kanhoto, 21.12.25

Há quem não se canse de estar do lado errado da história. Nem, qual D. Quixote, de lutar contra moinhos de vento e contra as mudanças que, gostemos ou não, vão acontecendo todos os dias na sociedade.

Ainda são muitos os que rasgam as vestes contra as privatizações. Como se o Estado, que somos nós e apenas dispõe do dinheiro que nos tira do bolso, tivesse obrigação de nos prestar todos os serviços e vender todos os bens de que precisamos. A privatização dos CTT, ainda no tempo do Passos, é daquelas que mais irrita os que desejam viver sob a tutela do Estado paizinho.

Vender aquela empresa foi uma boa solução. Distribuir cartas, já então se percebia, é um negócio sem futuro. Cá e em todo o mundo mais ou menos desenvolvido. Na Dinamarca, que em muita coisa nos devia servir de exemplo, o serviço postal vai entregar a última carta no próximo dia trinta de dezembro, pondo fim a uma tradição com mais de quatrocentos anos. Decisão justificada pela digitalização e a acentuada quebra no envio de correspondência. Por cá, mais cedo do que tarde, terá de acontecer o mesmo. Já ninguém escreve cartas de amor.

O mundo é o que é. Mas há quem prefira continuar a lutar contra o moinho, espada em riste, convencido de que o carteiro ainda vem a cavalo.

Agricultura da crise

Kruzes Kanhoto, 20.12.25

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O meu quintal constitui um ecossistema habitado por uma fauna abundante e indecifrável. Bichos esquisitos, rastejantes diversos, lagartas e passarada de todas as marcas. Todos com um apetite verdadeiramente obsceno. Comem tudo e não deixam nada, estes abutres aproveitadores do trabalho alheio e desconhecedores do conceito de propriedade privada. Como outros, igualmente detestáveis, que por aí cirandam.

Por alguma razão que os meus conhecimentos agrícolas não alcançam, mas a ciência explicará, os morangueiros estão agora a frutificar. Não produziram nada na época certa, mas agora há por ali uns quantos a dar fruto. Obviamente não como nenhum. Mal começam a ganhar cor, são de imediato integrados na cadeia alimentar da bicheza que adoptou este recanto como habitat. Daí esta opção mais ou menos drástica. Sempre quero ver agora como vão ripostar os rastejantes. Cá os aguardo, seus vermes!

Vão roubar para a estrada!

Kruzes Kanhoto, 19.12.25

Se há coisa que aprecio nos carros híbridos é aquela maravilha mística chamada travagem regenerativa. Um sistema tão virtuoso que permite conduzir sem gastar um cêntimo em combustível. Zero. Bola. Nadinha. E, cereja no topo do bolo, sem pagar imposto. Népia, Rien. Nicles. Um verdadeiro crime perfeito, só que legal. Claro que há um pequeno detalhe. Uma coisinha de nada, quase. Para alcançar esta espécie de nirvana automóvel é preciso circular a uma velocidade que faz inveja a um caracol asmático. Mas não faz mal. A sensação de não estar a ser rapinado pelo Estado compensa largamente o facto de a viagem parecer uma peregrinação medieval. Afinal, o tédio passa, o prazer de não ser roubado fica.

Quem, surpreendentemente, não acha graça nenhuma a isto são os governos europeus. Andaram anos a incentivar carros eléctricos, a distribuir subsídios como quem atira arroz num casamento, a anunciar o fim iminente dos motores a combustão e agora estão pasmados, boquiabertos, estupefactos, porque as receitas fiscais do sector automóvel estão a cair. Quem diria. Incentivam as pessoas a não gastar combustível e depois ficam chocados porque deixam de cobrar impostos sobre o combustível. Em consequência há que inventar uma nova forma de gamar o automobilista. Daí que mais uma ideia brilhante tenha surgido dessas mentes iluminadas. Uma taxa por quilómetro percorrido. Sim, senhor. Taxar o simples acto de existir em movimento. Consta que o Reino Unido será pioneiro, já em 2028, com três cêntimos por milha. Porque três parece um número simpático e ninguém desconfia de números simpáticos.

Estou escandalizado com tamanha falta de vergonha. Desconfio que qualquer reles bandido tem mais ética do que esta gente. Nem vou estar a desfiar um enorme rol de alternativas que esses cabrões têm para equilibrar as contas. Há muita despesa, desde aquela de atirar dinheiro janela fora até outra que recheia os bolsos de muita gente, que pode ser eliminada. Mas, para essa gentalha, isso não é sequer opção. Mais depressa, se taxar o km percorrido de carro não gerar receita suficiente, lhes ocorrerá lançar um imposto sobre quem anda a pé. Diz que desgasta a calçada. E, se calhar, não é assim tão bom para o ambiente. Por causa do chulé e isso. E das contas do estado, também.

IRS: fazer as contas antes que seja tarde

Kruzes Kanhoto, 17.12.25

Há quem garanta que existem apenas duas inevitabilidades na vida. A morte e os impostos. Quanto à primeira, convém empurrá-la para o mais longe possível. Na  segunda, ainda que não incumprindo descaradamente a lei, é imperativo fazer de tudo para pagar o menos que se puder. Daí que, no que toca ao IRS, os últimos dias do ano sejam o momento ideal para quem não se precaveu antes sacar da calculadora, fazer contas e tentar aproveitar todas as oportunidades legais para emagrecer a factura. Haverá várias ferramentas, mas deixo a sugestão deste simulador de IRS para rendimentos de 2025 a pagar em 2026. Muito completo, fácil de usar e com a enorme vantagem de permitir, com antecedência, avaliar a dimensão do “estrago”. E, se for caso disso, tentar minimizar, mesmo que modestamente, a escala do assalto.

A televisão como última trincheira

Kruzes Kanhoto, 16.12.25

A presença assídua — para não dizer quase permanente, como aquelas manchas de humidade que voltam sempre — de representantes do Bloco de Esquerda nos painéis televisivos de comentário político é um fenómeno digno de estudo. Não tanto pela sua relevância política, que é escassa, mas pela devoção quase litúrgica que a comunicação social lhes presta. Só assim se explica que um partido com a expressão parlamentar de um suspiro continue a ser tratado como se fosse indispensável à saúde da democracia.

Claro que há explicações. A mais caridosa aponta para a falta de profissionalismo de muitas redacções, incapazes de disfarçar preferências partidárias e, sobretudo, de exercer aquele velho hábito ultrapassado chamado imparcialidade. Outra pode ser a vassalagem. Opção impossível de deixar de equacionar quando se observa a reverência com que aquele grupelho, pouco recomendável até do ponto de vista estético, é convidado a opinar sobre tudo e mais um par de botas.

Esta quase omnipresença mediática contrasta, de forma cómica, com o seu quase desaparecimento do mapa político. O Bloco de Esquerda tem, recorde-se, um deputado. Um. Exatamente o mesmo número que o JPP. A diferença é que este último parece sofrer de uma estranha alergia aos estúdios de televisão, nunca aparecendo em debates ou fóruns onde se discute o país. Mistérios da democracia, dirão uns. Escolhas editoriais isentas, dirão outros. Depois aparecem a distribuir lições de democracia e o camandro, com a seriedade de quem confunde tempo de antena com votos.

E já que falamos em democracia e afins, não posso deixar de mencionar o Tribunal Constitucional que, a pedido do PS, declarou inconstitucional a lei da nacionalidade. Eles lá sabem. Eles é que leram os livros, eles é que são doutores. “Da mula ruça”, como acrescentava a minha avó quando sentia que a doutoral conversa estava a resvalar perigosamente para o parvo. Quanto a mim, acho que fizeram muito mal. Porque, a continuar assim, ao Chega basta fingir-se de morto — e nem precisa de o fazer muito bem — para que o poder lhe caia no colo. Depois não se queixem.

Ou há moralidade...

Kruzes Kanhoto, 14.12.25

Há, no Ocidente em geral e em Portugal em particular, uma devoção quase religiosa às proibições. Proibir tudo, de preferência aquilo de que não se gosta. As redes sociais são o exemplo do momento. Andam muitos a salivar pela sua interdição aos jovens e outros — os mais criativos no autoritarismo, diria — defendem mesmo a sua extinção. Percebe-se o entusiasmo. Informação é poder e a velha máxima de que “um homem informado vale por dois” constitui uma chatice para quem detém o poder e para aqueles que pretendem controlar a informação.

Um dos argumentos favoritos dos defensores das limitações — ou do abate sanitário — das redes sociais é a desinformação que por lá circula e o perigo que isso representa para a democracia. Um excelente argumento, reconheço. Seguindo essa lógica imaculada, o mais sensato seria começar a fechar tudo o que permita comunicação entre seres humanos. Ou, se a tarefa se revelar demasiado ciclópica, partir para a solução alternativa. Distribuir martelos e desatar à pancada em todo e qualquer dispositivo tecnológico. Algo ao estilo daquele visionário que decidiu escavacar televisões na Worten, numa espécie de performance pedagógica contra o mal.

Quando uma televisão pública, num programa supostamente educativo, afirma com ar doutoral que uma menina pode ter pilinha, não me parece que esteja a prestar um serviço exemplar à verdade. Está apenas a fazer o mesmo que qualquer borra-botas faz no seu mural do Trombasbook. Com a pequena diferença de ser paga por todos nós e de usar um cenário com melhor iluminação.

Cada um faz da sua vida o que muito bem entende. Agora, um meio de comunicação — do Estado, ainda por cima — não pode andar a propagandear bacoradas destas e, logo a seguir, discursar solenemente contra as fake news, a manipulação dos factos e a desinformação enquanto arma da extrema-direita. Por mim nada tenho contra quem se identifique, se isso o fizer sentir melhor, com um Tesla a combustão. A felicidade da criatura é legítima. No entanto a legitima felicidade da criatura jamais transformará odisparate em verdade.

De zero a três milhões vai uma greve de distância...

Kruzes Kanhoto, 12.12.25

No país não sei, mas na pacatez da minha cidade não dei por essa coisa da greve geral. Nem, tão pouco, da parcial se é que a houve. Cafés, restaurantes, bancos, superfícies comerciais e comércio em geral, serviços públicos e toda a espécie de actividades económicas funcionaram normalmente. Pode, eventualmente, ter havido um ou outro trabalhador da área do ensino que tenha aderido, mas isso já ninguém repara. Naquele sector nem se pode dizer que é greve. Já faz parte integrante da rotina profissional daquele pessoal.

Nas televisões, pelo contrário, a greve teve um sucesso estrondoso. Nomeadamente ao nível do material que produziu para os humoristas. Aquilo dá para horas e horas de programas humorísticos e para piadolas sem conta. Uma espécie de gozar com quem faz greve, que certamente o bobo da corte não deixará de aproveitar no Domingo à noite. “Não faço absolutamente nada na vida”, declarava orgulhosamente uma manifestante aos microfones da CNN. Outra, uma matulona com vinte e muitos anos, garantia que a mãe precisava de quatro empregos para a poder sustentar a ela e à irmã. Uma injustiça, acrescentava. E com razão. Ter bom corpo para trabalhar e viver á custa da mãe não me parece lá muito justo.

Enquanto isso o país consumia mais 6,3% de energia eléctrica do que no dia anterior. Das duas uma. Ou os grevistas ficaram todos em casa de aquecedor ligado no máximo ou aproveitaram o dia para se dedicarem à bricolage e pôr o carro a carregar.

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