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Kruzes Kanhoto

Ainda que todos, eu não!

Kruzes Kanhoto

Ainda que todos, eu não!

Controlar a informação é coisa de ditador

Kruzes Kanhoto, 31.08.25

Sob as mais variadas capas e os mais diversos pretextos não falta quem pretenda repor, cinquenta anos depois de “Abril”, princípios próprios do regime então abolido e de outros que felizmente, apesar dos esforços feitos nesse sentido, nunca chegaram a vigorar por cá. O controlo do que cada um de nós diz ou escreve é um deles. Há quem tenha a lata descomunal de defender publicamente a restauração da censura e a consequente limitação da liberdade de expressão. É isso que se pretende quando se defende o fim – ou o controlo pelo Estado, vai dar quase ao mesmo – das redes sociais. Em prol desta vontade, argumentam, está a defesa da democracia. Ou seja, para estas mentes iluminadas é preciso acabar com uma conquista das sociedades democráticas para proteger a democracia. A Rússia, a Coreia do Norte, a Venezuela, Cuba e outros faróis da democracia e das liberdades individuais já o fazem e, desconfio, pouquíssimos gostaríamos de habitar nesses países. Ficaríamos, como noutros tempos, sujeitos ao que os meios de comunicação social quisessem que nós soubéssemos. A história ensina-nos como funciona. Os exemplos são muitos e nem precisamos de ir muito longe. Basta lembrar o que fizeram – e quem o fez, no Verão quente de 1975, ao jornal “República”, os despedimentos efectuados pelo Nobel Saramago no Diário de Noticias ou as bombas que rebentaram com as antenas emissoras da Rádio Renascença.

Isto da populaça saber mais do que aquilo que as pretensas elites querem que se saiba é, reconheço, uma chatice. Seja sobre os “Panamá papers”, a Argentina ou as diatribes de um qualquer paladino da moral e bons costumes. Por falar nisso, onde posso encontrar um jornal ou um canal televisivo que investigue aquele escândalo financeiro – alguns garantiram, na época, que o fariam – ou que nos mostre – de forma séria, de preferência – as consequências da governação do Milei?

O sol que alumia lá não é o mesmo que alumia cá...

Kruzes Kanhoto, 28.08.25

Que os imigrantes fazem cá falta e que sem eles o país não funcionava é, evidentemente, uma evidência por demais evidente. Basta olhar para as equipas de futebol que disputam as principais ligas do pontapé na bola. Estão recheadas de imigrantes. Os “onzes” que semanalmente entram em campo, dos trinta e seis clubes que integram os dois principais campeonatos, são compostos maioritariamente por futebolistas estrangeiros. 

Se, como garantem os especialistas especialmente especializados em assuntos que envolvem a segurança social, migrações e generalidades diversas – vulgo jornalistas, comentadeiros e esquerdalhos em geral – é graças à imigração que a segurança social não vai à falência e que são os descontos dos imigrantes que vão pagar as nossas reformas, há qualquer coisa numa noticia vinda da Alemanha que não bate certo. Algo que me deixou perplexo. Abismado, até. E com vontade de chamar nomes ao chanceler lá do sitio, inclusivamente. É que, apesar daquele país acolher um número absolutamente avassalador de trabalhadores estrangeiros, parece que o sistema de pensões alemão não está em condições de garantir que no futuro possa continuar a pagar as reformas. De tal forma que o governo alemão criou um subsidio mensal de dez euros para que cada jovem constitua o seu plano de poupança. Esquisito, isto. Ou então, por cá, andam a gozar connosco. 

Uma questão de peso

Kruzes Kanhoto, 27.08.25

A senhora dona deputada doutora Mortágua vai de viagem. Um cruzeiro de duas semanas pelo Mediterrâneo até encontrar a tropa israelita, ao que tudo indica. Altura em que terminará a passeata. O que deverá ocorrer a umas quantas milhas da costa. Não tem nada de mal ou de criticável. Cada qual escolhe fazer turismo conforme quer ou a sua carteira permite. E no caso da excelsa senhora permite-lhe estas liberalidades. Estas e outras, como ficar sem salário durante a metade do mês que falta ao trabalho. Mas, como tudo na vida, o que vai para um lado não vai para o outro e o guito não dará para tudo. Falta, aparentemente, para a segurança. Sendo aquilo tudo gente boa e o mar Mediterrâneo uma zona muito frequentada por pessoas cheias de boas intenções, não haverá motivo para preocupações. Ainda assim a doutora Mortágua acha que o governo tem obrigação de providenciar os meios necessários para se manter segura. Até porque uma deputada da nação tem muito peso político, justificou. Assim de repente, não me parece que a deputada única de um partido insignificante de um pequeno país sem qualquer relevância na cena internacional, pese por aí além. Cá para mim está é com miúfa e quer as costas quentes não vá tornar-se um peso morto. Salvo seja e longe vá o agoiro.

Fogos e fogachos

Kruzes Kanhoto, 24.08.25

Devo ser o único português que não percebe nada de incêndios. A minha inabilidade, em matérias de fogaréus, é de tal ordem que acender o grelhador para fazer um churrasco constitui, para mim, uma tarefa ciclópica. A minha Maria que o diga. Por diversas ocasiões esteve quase a ter de fazer uma açorda porque as febras não saltavam para as brasas a tempo de um jantar a horas decentes.

Isto para dizer que os especialistas especialmente especializados em fogos sabem tudo acerca do assunto. Desde a prevenção até aos castigos a aplicar aos pirómanos, passando pelo combate às chamas, à maneira como coordenar aquilo e à forma como o governo devia lidar com o problema. E, já agora, também sabem o que não se deve fazer. Que é apagar brasas incandescentes em mangas de camisa, especialmente se forem tipos chamados André Ventura. Esses devem ficar quietos. Caso se chamem Montenegro devem ir para lá a correr, mas se o nome for Marcelo o melhor é não se aproximarem. Só atrapalham, com aquela mania das selfies.

Por mim que – reitero – de incêndios nada sei, parece-me que esta época de fogos foi deprimente. Mais uma vez. Quase tanto como promete ser a época futebolística do meu clube. Dirigentes que não se cansam de atirar dinheiro para cima dos problemas, treinadores incapazes de lidar com os egos do balneário e jogadores que marcam os adversários com os olhos em lugar de se atirarem à bola jamais constituirão uma equipa vencedora. Ainda bem que aquela malta do Benfica não anda nisso dos fogos, senão o país ardia todo.

Greve de fome, isso é que era solidariedade.

Kruzes Kanhoto, 21.08.25

O Hamas, aquela organização humanitária que zela pelo bem-estar dos palestinianos, propôs a realização de uma greve à escala global como forma de protesto contra o genocídio e a fome em Gaza. Ou a matança, como diz um conhecido bêbado. Com razão - um bêbado nunca se contraria - porque morrem muitos, mas nascem ainda mais. O que faz com que os requisitos necessários para a existência de um genocídio não estejam a ser cumpridos. Os israelitas - há que reconhecer - estão a esforçar-se, contudo a malta de lá não colabora e continua a fazer filhos como se não houvesse amanhã. Nem o barulho, a poeira e os efeitos desagradáveis das bombas os demovem de procriar.

A parte da larica, a outra componente do pretenso protesto, também se afigura muito sui generis. É o primeiro surto de fome em que, ao contrário dos que vimos na Etiópia ou na Somália, as criancinhas são mais esqueléticas do que as mães. Se a banda sonora que acompanha as imagens que nos servem a toda a hora fosse traduzida, acredito que ainda ouviríamos algum petiz a berrar para a progenitora: “Que raio de mãe és tu”.

A julgar pela quantidade de “fri-fri palestaine” que vejo por aí e de tanta gente com problemas de digestão da propaganda que lhe colocam na gamela, acredito que o apelo à greve será um retumbante sucesso. Tão grande que vai ficar tudo mais paralisado do que daquela vez do apagão. Por mim já reforcei o stock de pilhas. Para trabalhar. É que eu prefiro a democracia e estarei sempre do lado em que mulheres podem usar mini-saia.

Estacionamento tuga

Kruzes Kanhoto, 20.08.25

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Quem nunca, num parque de estacionamento “às moscas” ou com incontáveis lugares vazios, optou por estacionar num local inapropriado, chamemos-lhe assim. Eu já. Assim, tão à descarada e que me recorde, talvez não. Mas quem não o fez que atire o primeiro impropério. Embora este comportamento não tenha nada de mal. Tal como dizem certos aleijados da cabeça, quando chamados à atenção por pontapearem a gramática com elevada ferocidade, cada um escreve como quer. É mais ou menos o mesmo nisto do estacionamento. Cada qual estaciona o carrinho como lhe apetece e ninguém tem nada a ver com isso.

Sou pobre e maluco e não sabia...

Kruzes Kanhoto, 16.08.25

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O komentariado nas diversas televisões está, na sua imensa maioria, entregue a gente esquisita. Tirando aqueles que vão lá em representação dos partidos – esses, ao menos, sabemos ao que vão – aquilo está cheio de cartilheiros, criaturas intelectualmente pouco honestas e outros que nem se percebe como é que alguém os contrata para ir falar à televisão. Ou é um reiterado erro de casting ou é de propósito para descredibilizar os órgãos de informação. 

Uma dessas criaturas, jornalista ao que parece, afirmou um destes dias que “temos um interior abandonado, envelhecido, em que não há esperança, em que as pessoas são pobres, isoladas e têm problemas de saúde mental”. Terá razão quanto ao abandono, envelhecimento, isolamento e falta de esperança num futuro melhor. Embora isso não seja exclusivo do Portugal interior. Ainda que não conheça as estatísticas, quase arriscaria escrever que velhotes a viver e morrer sozinhos em Lisboa e Porto não serão menos do que no restante território. Quanto ao resto, a pobreza e a saúde mental, só me posso admirar por haver tanto jornalista e tanta gente das televisões a comprar casa no interior do país, seja para viver ou como segunda habitação. Devem gostar de morar no meio dos pobrezinhos e de criaturas que não batem bem da cabeça. Há malucos para tudo.

A cartilha enquanto instrumento de tortura da realidade

Kruzes Kanhoto, 13.08.25

Desde que apanharam em falso aquela moçoila do Chega que não sabia o valor do Rendimento Social de Inserção, não há debate em que o interveniente daquele partido não seja confrontado com a sacramental pergunta: “Sabe qual é o valor do RSI?”. Acompanhada, quase sempre, por um sorriso matreiro. Confesso que acho piada. Até pela originalidade. Mais ainda se, como foi o caso de ontem, em que o debatente do Partido Socialista depois de obtida a resposta – cerca de duzentos e cinquenta euros, mas sem ninguém ter a certeza – acrescentou a variante, “por família ou por pessoa?” referindo, sem esperar por resposta, ser deplorável que o interlocutor ache possível uma família de quatro pessoas, ainda que nenhuma trabalhe, viver com mil euros por mês. Isto dito por um tipo do PS, reitero. Aquele partido, não sei se estão recordados, que esteve no governo vinte e dois dos últimos trinta anos. De recordar igualmente, se calhar há gente do PS que não sabe, que há muitas famílias que se têm de governar com um valor idêntico e, pasme-se, até trabalham.

Por falar em gente alheada da realidade, circula um vídeo nas redes sociais de gente ligada à extrema-direita sobre supostas actividades religiosas daquela malta que reza de cú para o ar, à porta de uma igreja. Não digo que não aconteçam provocações desse género, mas no caso, trata-se de uma encenação efectuada durante um festival medieval. Manipulações desta natureza são, para além de desprezíveis, reveladoras do carácter de quem as faz e que apenas servem para descredibilizar as legitimas preocupações que os comportamentos desta comunidade estão a provocar na sociedade. Ou seja, o efeito contrário ao pretendido.

O que têm em comum estes dois assuntos? Nada, a bem dizer. Tirando aquela parte em que, em ambos os casos, se puxa da cartilha para torturar a realidade.

O peso e a sabedoria popular

Kruzes Kanhoto, 12.08.25

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Dizem os jornais de hoje que um homem faleceu sufocado pelo peso da sua esposa, que terá caído da cama e tombado sobre ele. O sujeito, um lingrinhas, não terá suportado a pressão exercida pelo corpo avantajado da senhora. Não é que queira fazer piadolas acerca do assunto, até porque o caso é sério, há que respeitar o falecido e ter em consideração a dor da esposa que vê o marido partir – ou ficar-se, conforme o ponto de vista – desta forma trágica. Nada disso. Ocorreu-me, no entanto, que no caso de as circunstâncias serem as inversas, ou seja o cavalheiro gordo a cair sobre a senhora magricela, esta tragédia não teria ocorrido. Segundo a sabedoria popular, um barrote em pé e uma mulher deitada aguentam todo o peso que lhes ponham em cima. É o que garantem também, entre outros especialistas das diferentes especialidade envolvidas, todos aqueles que estudam a resistência dos materiais. Lá está, essa coisa do “sexo fraco” não é bem como a pintam. Nunca foi.

A empatia do empoderamento

Kruzes Kanhoto, 10.08.25

Já não suporto essa coisa da empatia. Digamos que não tenho empatia nenhuma por quem, a propósito de tudo e principalmente de nada, anda sempre com essa palavra na boca. Hoje toda a gente diz ser empática, todos exigem empatia aos outros e não há parvo nenhum que não pronuncie essa palavra pelo menos dez vezes por dia. Ainda que, a maior parte, não passem de uns empatas.

O mesmo com isso do empoderamento. Seja lá essa cena o que for. Agora, todas as gajas de esquerda se gabam, para além de ter empatia para dar e vender, de ser empoderadas. Muito empoderadas, mesmo. Uma coisa parva, é verdade, mas se elas se acham assim é melhor não as contrariar. Primeiro porque ninguém nota nada e segundo porque um maluco – ou maluca – nunca se contraria.

Num tempo em que mais vale parecer do que ser, faz sentido que muita gente se declare empática e empoderada. Provavelmente não é nem uma coisa nem outra, mas fica bem para o like, para por no currículo e para a auto-estima. Por mim, já estou como dizia o poeta: “detesto os bonzinhos”. E, de caminho, as empoderadas auto-proclamadas.

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