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Kruzes Kanhoto

Ainda que todos, eu não!

Kruzes Kanhoto

Ainda que todos, eu não!

O sol (ainda) não paga impostos

Kruzes Kanhoto, 16.03.12

Se, por um lado, este tempo esquisito não me está a dar grandeajuda na horta da crise, por outro vai contribuindo para a eficiênciaenergética cá de casa. Cansado de carregar com botijas de gás - nos meses maisfrios eram duas por mês – optei, há coisa de um ano, por colocar um painelsolar para aquecimento de água. Recuperar o investimento inicial demora,naturalmente, algum tempo mas, mesmo assim, é uma opção que recomendo. Oconsumo de gás diminuiu de forma drástica, as minhas costas nunca mais sequeixaram e, com este inverno solarengo, quase nem tem sido necessário recorrerà energia eléctrica para aquecer a água do banho matinal. O astro-rei tem-seencarregado de a pôr a escaldar.
No processo de aquisição e instalação do sistema apenas umpormenor me deixou escandalizado. O painel foi fabricado na Austrália.Inacreditável. Somos um país em que o sol brilha a maioria dos dias do ano mas,apesar disso, não aproveitamos a sua energia nem desenvolvemos uma indústriaque vise a produção de equipamentos que potenciem o seu aproveitamento eprecisamos de importar estas coisas. Afinal, ainda que o sol quando nasce sejapara todos, parece que do outro lado do mundo ilumina muito mais. Pelo menos noque diz respeito às ideias, à iniciativa e ao que se faz com elas.

E que tal pô-lo a juros?

Kruzes Kanhoto, 15.03.12

Não falta quem ache o ministro da economia um verdadeiro totó.Talvez seja. Ou então será apenas um académico com pouca noção do que é a vidareal. Um teórico, portanto. Daí que hoje tenha teorizado acerca da forma comodeverão ser, de ora em diante, aplicados os fundos comunitários do QREN. Paracombater o desemprego e gerar riqueza, acha ele, em lugar de servirem paraconstruir rotundas, acrescentou.
Em tese não se afigura como uma ideia despropositada. É, até, algoque devia ter acontecido desde que o primeiro euro – ou, à época, outra unidademonetária qualquer – chegou a Portugal vinda dos cofres europeus. O pior é quenão é disso que o povo gosta. E o povo, pelo menos até que o Otelo promovaoutra Abrilada, é que vota e escolhe quem quer ver no poleiro. Por norma aquelesque fazem mais rotundas e outras obras que não se sabe ao certo para o queservem.
Esta intenção governativa demonstra que o ministro Álvaro conhecemal os portugueses. Se o dinheiro não for repartido – coisa em que não acredito– por inúmeras obras inúteis, bacocas e de rentabilidade rigorosamente nula,voltará direitinho para Bruxelas sem ser utilizado. O que, diga-se, seria preferívela esturrá-lo ingloriamente a endividar ainda mais o país. Assim como assimcomeço a pensar que, se calhar, a ideia de fazer espectáculos musicais e outraspalhaçadas com financiamento comunitário nem será das piores. Pelo menos semprecontribui para diminuir o desemprego entre os “artistas”. Ou lá o que lhes queiramchamar.

Evitar o homejacking

Kruzes Kanhoto, 14.03.12

Quiçá, com o agudizar da crise, este equipamento urbano passe ater outra utilização que não apenas a de servir como ponto de depósito do vidrousado. E quem diz a crise pode também dizer o aumento do IMI. Para muitos denós, se quem manda nestas coisas não ganhar juízo, não restarão muitasalternativas para além de entregar a chave de casa à Câmara e mudar-se para um abrigodeste ou doutro género. Com a vantagem, neste caso, de se poder dispor de umafantástica garrafeira. Pena que não seja fácil acomodar um colchão no seuinterior ou que mudar de roupa lá dentro se revele uma tarefa complicada. Masnão se pode ter tudo. Principalmente se isento de impostos parvos.

Quando o bom senso tem que ser imposto por uma lei...com pouco senso!

Kruzes Kanhoto, 13.03.12

Pretende o governo, por imposição da troika e – quase de certeza –de alguns fundamentalistas, reduzir em tempo recorde o montante da dividapública e, bem assim, a quantidade de dias – que é como quem diz meses ou anos –que um fornecedor tem de esperar para receber o dinheiro do bem que vendeu, ouserviço que prestou, ao Estado ou a qualquer outra entidade pública. Paraatingir tal desiderato tratou de aprovar a chamada lei dos compromissos epagamentos em atraso, em vigor há coisa de vinte dias, com a qual pretende queos organismos oficiais apenas adquiram bens, serviços, façam obras ou atribuam subsídiosse, para tal, tiverem dinheiro suficiente para pagar nos noventa diasseguintes.
A ideia, assim à primeira vista, até parece boa. É, no fundo,aquilo que qualquer pessoa precavida faz no dia-a-dia. O problema é que osportugueses, quer os que governam quer os que são governados, não são pessoasprudentes quando toca a gastar dinheiro nem nutrem particular simpatia por políticosque apliquem com rigor o dinheiro público. Pior. Durante muitos anos gastou-sesem rei nem roque e agora, assim de repente, querem que tudo mude e toda agente fique poupada. Quem sempre gastou o que não tinha vai perder o “brinquedo”e, como se compreende, fica chateado. Para todos – ou quase todos – vai ser umatragédia. Daquelas que, mais tarde ou mais cedo, vamos descobrir não acontecemapenas aos outros.
Tal como previ no post escrito no dia em que a lei começou a seraplicada, começamos a assistir a situações que, por enquanto, ainda não sepodem classificar de dramáticas mas que podemos – simpaticamente – considerar aborrecidas.Como, por exemplo, na área da saúde. Diz que em algumas unidades hospitalares começarájá a haver dificuldade em fornecer medicação aos utentes por, alegadamente, osfundos disponíveis – vulgo o dinheiro para pagar em noventa dias – não seremsuficientes.
Seguir-se-ão as autarquias. O que não admira. Pagar e morrer é aúltima coisa que se faz na vida e no poder local o lema, não necessariamentepor esta ordem, é seguido à risca. Pretender mudar isto de um dia para o outroé capaz de ser pedir de mais.