Esta cerejeiraque vai sobrevivendo no meu quintal – digo sobrevivendo porque, face àpaupérrima produtividade, um destes dias fica com as raízes ao sol – deve estarcom o relógio biológico avariado. Estamos em Novembro, acabou há poucos dias deperder quase toda a folhagem e está a começar a dar flor. Coisa que, acho, sódevia ocorrer lá para Março. A continuar assim, por essa altura devo estar acomer cerejas. Eu e os melros aqui das redondezas.
Compreendo quea prometida revolução no sector dos transportes das áreas metropolitanas deLisboa e Porto suscite a indignação de muita gente. Nomeadamente dos que serãoafectados pelas suas consequências. Ainda assim não é coisa que me inquiete poraí além ou que motive em mim o mais leve sentimento de solidariedade. Afinalsão os residentes destas regiões quem, de um modo genérico, menos se apoquentam com asdecisões governativas de encerrar serviços - por vezes tão ou mais essenciaisdo que os transportes - nas regiões do interior. Chegou, digo eu que nisto deser solidário sou um apreciador da reciprocidade, a altura de também osmoradores das duas grandes cidades e seus arrabaldes provarem, ainda que apenasligeiramente, da receita que há muito é aplicada ao resto do país em nome de algoa que chamam rentabilidade, ou assim.
Não ter transportepúblico depois das vinte e três horas não constituirá nenhum drama. É tudo umaquestão de mudança. De horário, de rotinas ou, até, de residência. O mercado –onde é que eu já ouvi isto – acabará por se ajustar. E, se não estiveremcontentes, façam-se à vida e venham morar para o Alentejo, para a Beira ou paraTrás-os-Montes. Curioso. Com as devidas adaptações esta sugestão também me soariavagamente familiar…
Cada dia quepassa serve para confirmar que as gorduras do Estado são, em especial, osfuncionários públicos e, de uma maneira geral, todos os restantes portugueses.Razão tinha o outro palerma em sugerir à rapaziada que emigre e deixe quantoantes esse país que parece condenado a ser governado por javardos. Sempre querover de que vão viver este bando de merdosos quando não estiver cá ninguém para ossustentar. Como disse o outro, eles sabem lá o que é a vida.
A acentuadadiminuição da população nos concelhos do interior devia constituir uma dasprincipais preocupações de quem tem por dever governar o país. Mas esse - e arealidade está aí para o demonstrar - não parece ser o caso. Tirando uma ououtra honrosa excepção. O Presidente da República, por exemplo. Recorde-seaquele discurso onde Cavaco se interrogava – ou interrogava-nos a nós, sei lá -de forma veemente, acerca do que seria necessário fazer para que nascessem maiscrianças no interior do país. Assim, derepente, não estou a ver. Mas, ainda no âmbito das perguntas parvas, acabo de constatarno site do Parlamento que o Presidente não está sozinho quanto às interrogaçõessobre esta temática. Quatro deputados do CDS-PP enviaram dezenas derequerimentos a outros tantos Presidentes de Câmara onde solicitam respostapara a seguinte questão: “Quais são, na opinião de V.Exª, as razões queconduziram à diminuição da população no concelho?”. Eu, que não sou deintrigas, quase me sinto tentado a sugerir que a concentração do investimentopúblico e privado na faixa litoral é capaz de ter alguma coisa a ver com isso. Ou que osucessivo encerramento de serviços públicos, deixando as populações aoabandono, pode ter tido alguma influência. Embora também suspeite que ascegonhas tenham uma assinalável dose de responsabilidade. Mas, como isto andatudo ligado, desconfio que o principal motivo é já não haver daquela rapaziadamariola a furar os preservativos com alfinetes. De cabecinha.
Os gregoschegaram ao fim da linha. Tal como nós, mais cedo do que tarde, acabaremos porchegar. Colocar nas mãos do povo a decisão acerca do seu futuro parece umadecisão sensata. Ou perigosa. Depende do ponto de vista. Mas que se justificaface à dimensão do que está em causa.
Por cá, quasede certeza, nunca seremos chamados a pronunciar-nos acerca das novas patifariasa que, um dia destes, seremos sujeitos. Principalmente se, como é expectável, osreferendos – sim, porque tal como noutras ocasiões serão gajos para repetir avotação até o resultado ser do seu agrado - na Grécia não correrem de feiçãopara aqueles que nos querem tirar a pele. Mas, se estiver enganado e formos tambéma votos, acredito que aceitaremos tudo e mais alguma coisa. Verdade que aalternativa será a falta de dinheiro para pagar ordenados, pensões e importar comidaou medicamentos. No entanto talvez fosse uma boa oportunidade para, definitivamente,os portugueses – incluindo muitos políticos e seus sabujos – aprenderem que agestão da vida, a privada e a pública, não se faz apenas de gastar dinheiro. Principalmentedo que não temos.