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Kruzes Kanhoto

Ainda que todos, eu não!

Propostas parvas

por Kruzes Kanhoto, em 23.01.10
Que eu escreva as mais variadas e destemidas barbaridades acerca de qualquer assunto sobre o qual me apeteça opinar não vem nenhum mal ao mundo. Na pior das hipóteses, se a opinião for por demais disparatada, faço figura de ignorante. Mas, como a minha voz não vai mais além do que o reduzido número de leitores deste blogue, a coisa não se reveste de uma gravidade especial. Até porque, como faço sempre questão de sublinhar, o que por aqui escrevo não passam de opiniões irrelevantes a maior parte das vezes desprovidas de fundamentação.
O mesmo não pode acontecer com as pessoas importantes. Aquelas que discursam em colóquios, fóruns e afins. Os que, pela importância ou destaque dos lugares que ocupam, deviam ter alguma moderação na divulgação das medidas que preconizam ou que propõem para regularizar a caótica situação em que se encontram as contas da Nação. É que a sucessão de disparates que várias figuras públicas têm debitado nos últimos dias, acerca daquilo que o Orçamento de Estado para o corrente ano deve conter, está ao melhor nível das sábias propostas de um assíduo frequentador de uma qualquer tasca mal-afamada.
Veja-se, só a título de exemplo porque podia citar mais uns quantos, o Presidente do BPI. Provavelmente ainda a digerir a resposta – em grande estilo, diga-se - de José Sócrates às críticas feitas pelo banqueiro à quantidade de dinheiro que o Estado terá gasto a combater a actual crise, o homem apresentou por estes dias propostas verdadeiramente inovadoras. E simultaneamente cínicas. Propõe Fernando Ulrich, entre outras coisas fantásticas, o congelamento das admissões e dos salários na função pública por um período de três anos. Sensivelmente um ciclo eleitoral, portanto.
Mesmo admitindo que em termos financeiros essa seja uma medida com resultados imediatos no controlo do défice, embora anteriores congelamentos já tenham demonstrado que o seu impacto não foi determinante, em termos económicos tal imposição, a concretizar-se, revelar-se-á uma verdadeira tragédia para as regiões mais pobres do país. Sabendo-se como em muitos concelhos uma parte significativa da população activa depende dos salários pagos pela autarquia ou pelo Estado, magros na sua esmagadora maioria, não será difícil adivinhar o impacto que tal situação causaria nas restantes actividades económicas. A quebra nos negócios seria acentuada, verificar-se-ia uma baixa na cobrança de impostos e daí resultaria uma menor receita para as Câmaras que, em circunstâncias extremas, deixariam de ter recursos para fazer face às suas obrigações porque, como se sabe, o financiamento das autarquias do interior, onde não existem negociatas de milhões a nível imobiliário, depende na sua quase totalidade do IRS gerado na sua área e do Fundo de Equilíbrio Financeiro, calculado com base nas receitas nacionais do IRS, IVA e IRC.
Por mim, que também gosto de fazer propostas parvas, proponho que todos os funcionários públicos cancelem as suas contas no BPI. Pode não fazer grande efeito e ter um impacto praticamente nulo nos negócios do banco, mas quem zomba desta forma indecente com largas centenas de milhares de pessoas não merece que nenhuma delas lhe confie o seu dinheiro.
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