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Kruzes Kanhoto

Ainda que todos, eu não!

A ditadura da fatiota

por Kruzes Kanhoto, em 15.05.17

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Um idiota qualquer lembrou-se hoje de opinar acerca da indumentária que as mulheres devem usar em contexto de trabalho. Obviamente que lhe caiu tudo em cima. Bem feita. Ninguém lhe manda andar a despejar alarvidades. É, pois, com normalidade que se assiste por esta altura à ridicularização do individuo em causa. Ninguém parece demonstrar a mínima compressão para com a criatura. Ou, já agora, tolerância que é uma coisa a que se apela com frequência. Mas, lá está, o tipo merece.

Curiosamente outra ideia igualmente repugnante, dada a conhecer ao mundo por estes dias, provocou muito menos reacções de desagrado. Pelo contrário. Suscitou até uma certa benevolência para com a proponente da iniciativa. Trata-se de uma fulana que se lembrou de promover um desafio para que as mulheres ocidentais usem o hijab durante quinze minutos. Diz, coitada, que se sente mal com os olhares de escárnio e piadolas que lhe dizem. Coisa que, acho eu, a senhora resolveria facilmente. Bastava tirar o trapo que lhe cobre a cabeça. Ou, para aquilo do multiculturalismo ser levado a sério, sugerir quinze minutos de mini-saia em Riade.

Pode sempre argumentar-se que não são situações comparáveis. Pois não são. O português pateta que largou aquele disparate representa o passado. É motivo de chacota, soltamos hoje umas gargalhadas à conta dele e amanhã já ninguém se lembra de tamanha parvoíce. A gaja que quer pôr as mulheres a usar o véu islâmico representa o futuro. Aquele que, seguramente, irá acontecerá num tempo não tão distante quanto isso. Daí que a maioria de nós prefira assobiar para o lado, encarar o assunto com alguma bonomia e fingir que o problema não existe. Não vá o diabo – ou o equivalente islâmico – tecê-las.



 

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